Tenho andado desaparecido, mas o meu desaparecimento tem uma explicação, que dou aqui por estar directamente relacionada com aquilo que tenho visto, lido e, consequentemente, sentido, não só em relação ao Benfica, mas também no que toca ao futebol português em geral.
Francamente, estou cansado. De várias coisas. No que respeita ao meu clube, estou cansado, no plano desportivo, dos jogadores. De Cardozo a refilar para o banco. Da exibição patética contra aquela equipa patética. Esperem. Equipa's' patética's'. Nacional, Nuremberga, Naval, Leixões,
you name it. Não suporto aquela desorganização, o estado de dormência com que entra em campo a minha equipa. O completo desprezo pela camisola, pela história, pelo nome que representam. Não tenho qualquer interesse pelos jogos, porque os jogos não me dizem nada. Entusiasmo-me mais facilmente com um despique entre os Cleveland Cavaliers e os Phoenix Suns do que com um jogo europeu do meu clube. É que aqueles, ao menos, correm. E jogam. E dão espectáculo. Dá gozo ver aquela gente a jogar. Eles, ao menos, fazem o que gostam e conseguem demonstrá-lo. Por oposição às nossas papoilas saltitantes, com o seu inexistente "fio de jogo", com a sua falta de concentração, com as constantes repetições semanais de uma miséria que, pelos vistos, veio para ficar.
No plano administrativo, não percebo por que raio Rodríguez decidiu, de repente, ir-se embora. Não percebo por que é que o Léo, actualmente uma das referências da equipa, não fica. Porque é que ninguém nos explica?! Em qualquer país civilizado, encerrar-se-ia o assunto. Porque é que toda a gente fala? Porque é que ninguém é capaz de ficar calado? São demasiados porquês. Já não aguento as frases feitas de LFV, as bocas de LFV, LFV
himself. O Benfica foi transformado numa caricatura e parece que ninguém, do Presidente ao latrineiro, parece estar minimamente interessado no assunto.
Em termos nacionais, estou farto dos FC Porto-Marítimos a que já assistimos esta época. De árbitros incompetentes, de árbitros ceguinhos, de árbitros mãos-largas. De órgãos de fiscalização que parecem mais negligentes que os indivíduos que fiscalizam. De não poder dizer, a plenos pulmões, que estes filhos duma grande puta são todos uma cambada de corruptos. Porque não posso provar. Porque, pelos vistos, ninguém pode. Leio o Blog da Bola e só me apetece deixar de ver futebol, deixar de pensar sobre futebol, deixar de gostar de futebol. Acho até que já não gosto. Aprendi a gostar, apenas e só, do Benfica. Mas o próprio Benfica é tão mau que se torna insuportável assistir ao lodo em que se afunda aquele que, para mim, é o melhor clube do mundo. Ainda que esse mundo seja o meu.
É que a impunidade confrange-me. Estou-me nas tintas se é a do presidente do FC Porto ou do presidente do Benfica. Confrange-me, apenas. Não confundo os indivíduos com as instituições, mas são os indivíduos que as constroem. Sempre primei pelo individualismo porque, em português corrente, nunca "papei grupos". Odeio grupelhos, associações, massas. O Benfica sempre foi a excepção. Ainda é. Mas quando o Benfica é impotente, dada a sua natureza autofágica, para combater a podridão que se apodera do mundo em que existe, o que é que podemos fazer? Queixa na polícia? Como alguém escreveu algures (creio que na Tertúlia), só a morte purgará o futebol português. Permitam-me discordar. Até a morte aprecia um belo galão de vez em quando. Porque massacra a primeira geração, mas deixa a segunda totalmente impune. A família Loureiro é o exemplo perfeito desta verdade intragável.
Tenho saudades. Saudades dos tempos remotos e dos remorsos que me causava não ter ido ver um grande jogo do meu clube. Porque era caro, porque estava frio, porque sim. De pertencer a algo maior que o próprio país. De não ser indiferente. De ter vontade de recorrer à ironia para classificar as irónicas vitórias de FC Porto ou Sporting. De suar antes, durante e depois de um jogo. De sentir um milímetro de alegria com o futebol. Que não tenho sentido há algum tempo. E a culpa, seja eu mau ou bom adepto, também é muito do Benfica.
É isto, creio. Perdoem-me os palavrões,
but I couldn't hold my liquor. São, no fundo, o meu grito de revolta. Tão pequeno, desprezível e patético como o futebol português de hoje em dia.