Portugal padece de muitos vícios. Corrijo: os portugueses padecem de muitos vícios. Muitos totalmente incuráveis. Um deles é o síndrome da ribalta. Não existe um só único português num raio de milhares de quilómetros que seja capaz de manter o tino quando se vê numa situação de estrelato. Dão atenção ao tuga e o tuga imediatamente deixa encher o rei na barriga.
Percebo o entusiasmo perante a selecção de Rugby. Pessoalmente, considero o rugby um desporto moderadamente interessante. A razão? Cito Tomaz Morais, o todo-poderoso selecionador nacional: "contra a Nova Zelândia vamos tentar não bater o recorde mundial!". De quê?, pergunta-se. Da equipa que mais pontos sofreu. Até hoje, pertence a uma selecçãozeca qualquer que levou cento e quarenta e cinco a zero da Austrália. O feito dos Lobos, porém, não deve ser escamoteado. E, por isso, estão de parabéns.
O problema é que também eles (um deles, pelo menos) foram imediatamente afectados pela tal necessidade premente e tuga de abrir a boca. Numa entrevista à NS, Vasco Uva (capitão da selecção) disserta sobre várias coisas, nomeadamente sobre futebol. E o problema é que esta dissertação compreendeu uma vontade premente de exaltar o rugby, esse "desporto de combate", como um modelo de virtudes, por oposição ao futebol e à péssima mensagem que os seus praticantes passam à sociedade.
Não que Vasco Uva goste de "criticar o futebol". Nada disso. Mas no rugby, "nós não dizemos mal dos companheiros, da selecção...". Ou seja, a imagem que o desportista de rugby passa para a sociedade, tema que Vasco foca com fulgor, é a acefalia acrítica em relação às instituições que representa. As coisas podem correr mal. Mas não se diz mal da selecção. Aliás, é saudável ler que, quando entram em campo e ouvem o hino, os jogadores assumem que, "se for preciso, morremos em campo". Não me lembro de nada mais bonito e pedagógico do que esta vontade japonesa do martírio. Se há coisa de que a sociedade precisa - neste capítulo, a portuguesa bem mais do que as outras - é de gente disposta a morrer pela causa. Racionalismo? Relativismo? Argumentação? Não! Isso é para quê? Morremos todos em campo e está a coisa resolvida. Aliás, era capaz de fazer já uma lista de gente a quem eu ensinaria, de bom grado, esta filosofia harakiriana que o rubgy, desporto de eleição, tão bem passou para a sociedade.
Porém, não contente com a exaltação desse desporto onde os atletas não devem esperar menos do que a tetraparalisia, Vasco continua. E que nos diz ele, mais, de relevante? Que, na selecção, os jogadores riem-se a ver jogos de futebol. Porquê? Porque as simulações, típicas do futebol, não fazem parte do rugby. Não. Isso seria falta de
fair play. Sou forçado a concordar. O Vasco, admito, tem razão. Aliás, não me lembro mais difícil de simular do que uma coluna partida ou do que uma mão esmagada, lesões típicas e quase irrelevantes para os nossos atletas. Mais difícil, aliás, só mesmo simular que se estava morto. Que me recorde, ainda nenhum jogador de futebol, esse patético desporto sem combate, o tentou. Se bem que, quem tem Liedson...
Parece, todavia, que os desportistas de rugby é que sentem a selecção. Os de futebol, não. Creio que isso é facilmente explicável através de uma analogia. Imaginemos um casal, casado há vinte anos. Há respeito mútuo, há pouco sexo, mas o que há é, de vez em quando, frenético e há um conhecimento total dos desejos e necessidades do outro. Perdeu-se alguma fantasia, mas construiu-se uma relação sólida, com pilares bem assentes. Esta é a selecção luso-brasileira de futebol.
A de rugby é ligeiramente diferente. Imaginemos um parzinho de namorados. Ela, morena, roupinha justa da Bershka misturada com saiote da Gant e um apelido apelativo. Sejamos meigos: Pituxa. Ele, moreno, roupa ligeiramente mais larga, com GAP tatuado no peito, cabelo a meio das orelhas, calções da Billabong, o inevitável fiozinho de prata com Cristo lá no fundo, pregado à cruz (o martírio, sempre o martírio!) e o
nickname Kiko. Com K, que é para ser moderno. Pituxa e Kiko conheceram-se na Kapital e apaixonaram-se de imediato. Há sempre um vínculo forte que se estabelece entre pessoas que acordam no vomitado uma da outra. Seguiram cada um para sua casa, ela para Oeiras, ele para Cascais. Era sexta à noite. Sábado iam "curtir". Foram para a praia. Kiko encontrou os amigos do Surf e do Rugby. Pituxa, as amigas das compras. A relação desenvolveu-se de forma apaixonada. Os vómitos foram-se sucedendo, cada vez com maior frequência, até que Pituxa disse a Kiko, em linguagem que, por não saber reproduzir, tenho de inventar, qualquer coisa como: "Monta-me!". Kiko exultou, mas preferiu esperar. Sentiu uma necessidade premente de montar Pituxa, mas os pais dela, Madalena e Diogo Vasconcellos (com dois lês) de Andrade, estavam em casa. Era preferível adiar. Kiko passou os dias seguintes antecipando o momento. Não haveria nada mais apetecível do que montar Pituxa. E Pituxa sabia-o. Chegado o grande dia, depois de um treino mental e, quiçá, físico pungente, Kiko estava preparado para montar Pituxa. Foi um momento intenso. Pituxa despia Kiko, Kiko despia Pituxa e ambos estavam preparados para
le grand finale. Só que, de repente, quando Pituxa dá por isso, ainda nenhum tinha entrado em campo e já Kiko punha a bola para lá da linha. Muita intensidade, muita fricção, mas pouco resultado. Os jogadores da selecção de rugby sentem-na verdadeiramente. Só não sabem é se vão perder por mais de dois dígitos com a Nova Zelândia. Irrelevâncias...
Uva termina defendendo-se das críticas, alegando que o rugby não é um desporto só para betos. Se tivermos em conta as fotografias que acompanham a reportagem (Uva de fato completo, Uva no wakeboard, Uva no rugby, Uva no iate), podemos constatar, claramente, a veracidade desta afirmação.