Este é grandinho...
Tenho por hábito dizer que o 25 de Abril foi o dia em que os carneiros saíram da cerca. O problema com esta saída repentina foi que, apesar da verdura da relva para lá das limitações físicas da madeira (ou do arame - como preferirem), os carneiros continuaram carneiros e a sua capacidade para gerar pensamento crítico continuou bloqueada por uma questão natural. Os homens não podem ter filhos e os carneiros não geram pensamento crítico. É a natureza no seu estado elementar.
Lembrei-me desta introdução ao ler o
editorial de hoje do Diário de Notícias (DN). Nele, o senhor editor disserta (o que não consagra, necessariamente, uma capacidade crítica, mas uma mera enunciação de pensamentos abstractos) sobre a incapacidade latente das forças policiais de passarem informações à opinião pública sobre o problema com a menina inglesa. Como argumentos, o senhor editor diz que os ingleses estão habituados a que “a competência da investigação seja acompanhada de profissionalismo na sua comunicação”. Se eu quisesse ser mauzinho, diria que os ingleses também estão habituados a deixar os filhos no quarto, sozinhos, enquanto vão jantar a um restaurante. Mas não é essa a questão.
Continua o senhor editor, sustentando que “os jornalistas, cuja função é responder ao interesse do público, vão tentar obter a informação que a PJ lhes nega”, originando assim “boatos e hipóteses tornadas factos”. Ora, é notória a culpa da PJ nesta situação. Os jornalistas, naturalmente, tentarão apenas obter a informação, já que o público, sem estas mentes iluminadas, é incapaz de raciocinar. Ou de obter informações. Ou, sequer, de pensar sobre os assuntos. A PJ é que publica os boatos. E os factos. Não são os jornalistas que depois não os verificam. Longe disso.
O senhor editor continua, ad eternum e, diria eu, ad enfadonhum, alegando que isto dá uma péssima imagem de Portugal. Todavia, os jornais ingleses (e por jornais não entendo a versão inglesa do “Sol” e companhia) têm sido extremamente coerentes, respeitando a investigação e a forma de actuar da Polícia portuguesa. Onde está, então, essa péssima imagem? Em que jornal é que surgiu tal notícia? Eu percebo que um editorial seja uma crónica assinada pelo editor, mas era boa ideia que os editores, depois de alcançarem estes lugares cimeiros, recordassem o que aprenderam enquanto jornalistas. As informações têm de ser sustentadas por factos e é boa ideia que esses factos sejam verdade. Sob pena de as pessoas perderem a confiança nos tais meios de comunicação.
Adiante. Depois desta longa demonstração da notória incapacidade do senhor editor para, do alto da sua posição cimeira (passe a redundância), transmitir factos em relação a um assunto que não é do seu domínio, a propinquidade continua. E, desta vez, mete ao barulho o director clínico do Benfica. “Ufa”, pensaram os leitores, “este gajo nunca mais se despachava”.
Começa brilhantemente o parágrafo o senhor editor. Vai tratar-se aqui doutro caso em que é notória a importância e a necessidade da comunicação. Falada? Escrita? Balida? Não diz. Aguardei. Esse caso, escreve ele, reporta-se ao senhor João Paulo Almeida, que “veio explicar, sem se incomodar sequer em pedir desculpa, que tinha mentido à opinião pública no caso de um problema físico do jogador Simão” por considerar que era essa a melhor forma de salvaguardar o interesse do jogador. “Não omitiu”, escreve o senhor editor, visivelmente chocado. “Não ocultou”, continua, agora com emoção. “Pura e simplesmente abusou do público”, finaliza.
Peço agora um minutos para dotarmos de cor e forma a imagem do público a ser abusado pelo director clínico do Benfica, certamente um homem dotado, para poder abusar de tanta gente em simultâneo. Ou será que não era assim tanta gente? Bom, isso depende. Mas depende do quê? Do quão dramático quiser parecer o senhor editor. Em vez de lhe chamar “gente”, chama-lhe “opinião pública”. Conceito interessante, esse. Indeterminado. Abstracto. Tal como a lei. Por exemplo, a
Lei da Imprensa. Que, no seu artigo 3º, determina quais os limites a que devem respeito os que transmitem a informação. Estão na Constituição e na Lei. Que, para os jornalistas de hoje, é tudo a mesma coisa. Diz também que se pretende uma salvaguarda do rigor e da objectividade da informação,bem como a defesa do interesse público. Mas quem é que determina o que é o interesse público? Quem transmite a informação. Conveniente, não é?
Pensemos na seguinte hipótese hipotética: durante o período de transferências, em que não há jogos de futebol, competições internacionais, um daqueles anos sem mundiais e sem europeus, em que todos aguardam notícias de Inglaterra para saber quantos milhões vai o Chelsea gastar na contratação do próximo jogador, os três diários desportivos, perante a seca noticiosa, resolvem publicar, diariamente, a notícia da contratação de vários jogadores, por suposição, para o Benfica. Hipótese meramente académica, obviamente! Durante dois meses consecutivos o interesse do público, note-se, é saber quais serão as contratações. O Presidente desmente. O clube desmente. Mas os jornais insistem. Eles é que sabem. E ai do clube que ouse pedir-lhes para deixarem de publicar tais, vá lá, verdades por confirmar. Cai, de imediato, o Carmo e a Trindade, sob acusações histéricas de tentativas de censura e referências ousadas ao dia em que os carneiros saíram da cerca, vulgarmente conhecido por 25 de Abril.
Não interessa que o clube seja prejudicado por estas notícias. É uma figura pública (não em termos juridicos) e, como tal, tem direito a ver qualquer tipo de imbecilidade publicada nas páginas dos jornais. Pergunto eu: se os jornalistas têm direito a proteger as suas fontes, quem é que assegura que as suas fontes existem? Quem é que me diz que a “fonte próxima do Benfica” não é aquele adepto que aparece nos vídeos do You Tube completamente borracho, incapaz de pronunciar sequer o nome do Maestro? Afinal, ele está próximo do Benfica. Pode ser associado. Enfim, pode até ser uma proximidade geográfica. Da sede, por exemplo. Ou do Estádio.
Não contesto que o comportamento do departamento médico seja pouco ético. Mas a verdade é que existe um grau de discricionariedade muito grande em relação ao que o médico decide que deve dizer e ao que decide que não deve dizer. Afinal, é abrangido por uma cláusula de segredo entre médico e paciente. Se o paciente, como foi noticiado, pede ao médico que minta, é o médico que deve decidir o que dizer, não as fontes noticiosas. E se os jornais podem publicar notícias que, coitadinhos, lhes são fornecidas por, por exemplo, criancinhas da Casa Pia, eles publicam. Arruinar a reputação de pessoas? O que é isso?! O interesse público (e, enfim, essa coisa irrelevante que é o lucro) está acima de qualquer direito. Sobretudo quando se tratam de figuras públicas, às quais é dada a honra, a honra! de ver escamoteada a sua vida privada em público.
Por que o que se constata da maior parte do jornalismo em Portugal é uma clara incompetência de quem escreve (aliás, mais não poderiam ser as péssimas referências feitas por vários professores de Direito à forma como os jornalistas escangalham por completo todo e qualquer conceito jurídico) e um abuso inaceitável de determinados poderes que, infelizmente, lhes são conferidos por lei.
Se o editor do DN pretende falar de credibilidade, comece por enunciar os factos relativos às notícias que comenta, sob pena de ser visto como um “treinador de bancada”. E que transmita as duas versões dos acontecimentos, em nome da necessidade de informar o público necessitado. Se é verdade que o comportamento do director clínico do Benfica é incorrecto, mil vezes o é o de todos os jornais desportivos que, quais aves de rapina, se debruçam sobre os clubes para deles poderem retirar tudo aquilo que lhes for favorável, mesmo que isso implique qualquer tipo de prejuízo. Não que uma acção justifique a outra. Mas alturas há em que se torna impossível compactuar com este tipo de actuação, sendo qualquer profissional forçado a contar uma verdade alternativa por forma a não ser claramente prejudicado por isso. No futebol sobretudo, dada a fortíssima componente anímica que o enforma.
Termina o senhor editor com uma série de perguntas fundamentais (como é típico de todos estes filósofos da comunicação que, em vez de darem o peixe ao público, preferem ensiná-lo a pescar – infelizmente, com caçadeiras): com que cara é que João Paulo Almeida pode continuar a falar em público? A resposta é, com a dele, o tal que, de tão dotado, consegue abusar de todo o público de uma só vez. Como quer, a partir de agora, que a sociedade lhe dê crédito? Simples. Ou ele se está nas tintas para a sociedade, que é composta, neste caso (ah, a inexactidão conceptual do jornalismo – que maravilha!), pelos ofendidos jornalistas – pausa para as lágrimas necessárias – e continua a ganhar dinheiro “à fartazana” com o Benfica e consultórios, ou liga à sociedade a desculpar-se e contrata rapidamente um advogado para se processar a si próprio. E a seguir consulta um padre para expurgar os seus pecados de sarraceno. Escolha difícil, uh? E o Benfica, ratifica este comportamento? Lá está o conceito legal a ser vilipendiado pelo comunicador. Ratifica? Mas podem ratificar-se comportamentos? Bom,alguém andou claramente a faltar às aulas de “Direito para tótós” para andar a fazer sabe lá Deus (mais um conceito indeterminado!) o quê, sabe lá Deus onde!
Estes editores de hoje em dia...